22 de Março, 19h: “Crazy Horse”

Realização: Frederick Wiseman

Documentário

EUA/FRA, 134’, M/16

Criado por Alain Bernardin e inaugurado a 19 de Maio de 1951, na Avenida George V em Paris, o Crazy Horse Saloon tornou-se num dos mais emblemáticos cabarés de todo o mundo, onde o estereótipo da beleza feminina e o erotismo dão o mote a um espectáculo de striptease.
É neste cenário inspirador que o reconhecido documentarista americano Frederick Wiseman (A Dança – Le Ballet de L’Opera de Paris) regressa ao seu registo habitual, apresentando à sua própria assistência as hierarquias, a disciplina e o sacrifício que implicam uma encenação destas proporções

 
Crazy Horse”, filme de recreio, de recreio passado no quarto das meninas”
Frederick Wiseman está a caminho de se transformar num cineasta parisense… “Crazy Horse”, sobre a homónima e celebérrima casa de espectáculos “para adultos” da capital francesa, faz uma óbvia rima com “A Dança”, o filme sobre a companhia de bailado da Ópera de Paris, que apresentámos na semana passada (entre os dois voltou a filmar na América, “Boxing Gym”, que ficou por estrear em Portugal). Passar da Ópera ao Crazy Horse é um movimento divertido: eis ainda a dança e o espectáculo em versão “after hours”, decadente, transgressora, espécie de “espelho” nocturno e marginal para a solenidade institucional do Ballet de l’Opera de Paris.

Mas isso dizemos nós. Nenhuma das personagens de Crazy Horse está convencida de que haja menos “solenidade”, menos “instituição”, e sobretudo menos dignidade, na sua casa de espectáculos e no seu trabalho. Sorrimos muito mais vezes a ver “Crazy Horse” do que a ver “A Dança”, por causa das coisas que os intervenientes dizem ou fazem, e também, claro, por causa dos espectáculos propriamente ditos, mas não porque Wiseman esteja aqui para ser sobranceiro ou para lançar um olhar que apequene o trabalho das coristas, dos coreógrafos ou dos produtores do Crazy Horse. Está do lado deles, no meio deles e, se repararem bem, quando se interessa pelo público fá-lo quase sempre do ponto de vista do palco, em planos de frontalidade “invertida”: como se não fosse o palco que estivesse à frente do público, mas o público à frente do palco, e a câmara se tornasse “espectadora” dos espectadores.

Isto resume bem, julgamos, a posição e a atitude de Wiseman, afinal de contas a sua posição e a sua atitude de sempre. Talvez aqui até um bocadinho mais “bondosa” do que lhe é habitual, porque parece jogar menos com aqueles momentos, típicos do seu cinema, em que a montagem, aproximando momentos subtilmente contraditórios, vem criar uma tensão capaz de suspender a linearidade de um juízo (sobre uma acção, sobre uma frase, sobre um estatuto) e pôr em causa, sempre em subtileza, a forma como a instituição focada se dá a ver. Em “Crazy Horse” encontramos menos momentos destes, razão por que, óptimo filme que é, nos parece que nunca se perfilará entre o melhor ou mais relevante da filmografia wisemaniana.

Encontramos, sim, outras coisas – como se no cinema de Wiseman o que se perdesse de uma maneira se ganhasse de outra. Uma sensação de integração, pacífica e calorosa dentro daquele meio, dos camarins e das coristas aos escritórios da direcção, a câmara e Wiseman tornados “one of them”, numa cumplicidade sorridente (esta sim, rara em Wiseman) que tem os seus momentos mais evidentes no à vontade com que se entra pelo “quarto” das raparigas, e estas se passeiam nuas ou semi-nuas enquanto têm conversas de meninas (de meninas-coristas, mas meninas “quand même”), e tudo se passa como se Wiseman tivesse encontrado uma maneira de inventar, neste “antro” tão associado ao “pecado” e à “transgressão”, um filme sobre a infância, sobre uma certa forma de infância, inocente e descomprometida. Não dizemos que a infância (ou a inocência, ou o descomprometimento) esteja no Crazy Horse; mas dizemos que está no filme, no olhar que Wiseman lá vai arrancar. E na sua vasta obra, não nos lembramos de outro momento em que tenha feito isto, desta maneira.

Como sucedia com o filme da Ópera, “Crazy Horse” é um filme sobre a produção, as dificuldades práticas de montar um espectáculo, entre problemas com as luzes do palco e as pressões dos accionistas. Assistimos a reuniões e a sessões de trabalho, a momentos de introspecção e reflexão, até a entrevistas (aproveitando a presença no Crazy Horse de uma equipa de televisão) onde a “filosofia” do cabaré nos é explicada (e a explicação ouve-se com um sorriso, que juraríamos que também é o de Wiseman, embora ele nunca se desmanche). E assistimos a espectáculos, vagamente inacreditáveis na sua estética “teledisco de Grace Jones nos anos 80” (ou conforme a campainha que toque em cada espectador), de que Wiseman apanha toda a fantasia puxando-a à mais completa abstracção: luzes, cores, música, e generosas porções da anatomia feminina, como se isto, tudo isto e nada mais do que isto – a “feérie” – fosse o centro total e absoluto de “Crazy Horse”. E também dificilmente encontrarão uma coisa assim noutro filme de Wiseman. “Crazy Horse”, filme de recreio, de recreio passado no quarto das meninas. (Luis Miguel Oliveira, in Ipsilon)

Fontes: Cinecartaz Público e IMDB

Como curiosidade, referimos que esta semana está em cena em Lisboa, no CCB, uma peça “Octopus” do mesmo coreógrafo que vemos no filme a montar o espectáculo “Désir” – Philippe Découflé.

 

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