8 de Março, 19h: “Quem tem medo de Virginia Woolf?”

Realização: Mike Nichols

Interpretação: Elizabeth Taylor, Richard Burton, Sandy Dennis, George Segal

EUA, 1966, 131’

Num sábado à noite, após uma festa da Universidade, um casal convida outro casal para continuar o convívio em sua casa. Este é o ponto de partida para o primeiro filme de Mike Nichols, baseado na peça homónima de Edward Albee.

Martha e George, um casal de meia-idade, conduzem-nos através de uma montanha-russa de jogos psicológicos onde o ódio e o amor são a tónica dominante. O álcool, a quinta personagem, funciona aqui como o desinibidor destes dois seres que nos confundem ao ponto de nos questionarmos sobre a razão de permanecerem juntos.

Este é o filme que retrata, sem medo, até onde pode o ser humano ir quando embarca na odisseia de manter o outro vivo, vigilante e perto de si. Quando possui todas as armas para ferir sem dó nem piedade aquele que ama, mas permitir também ser ferido. Porque é de amor que se fala no filme, um amor antigo, inequívoco, e ao mesmo tempo violento.

Elizabeth Taylor e Richard Burton, que protagonizaram na vida real um dos amores mais controversos de Hollywood, transpõem para a tela as suas lutas e as suas paixões ao darem vida a Martha e George, ela filha do Reitor da Universidade, ele professor do Departamento de História.

Quando o filme começa somos surpreendidos por uma Elizabeth envelhecida, gorda e vulgar, diametralmente oposta de todas as imagens que estávamos habituados a ver. Esta não é a majestosa Cleópatra, e muito menos a bela Maggie. Esta é Martha, uma mulher sofrida e simultaneamente perversa, que bebe desalmadamente e humilha impiedosamente o próprio companheiro, até ao limite. Martha grita, chantageia, agride, e não tem medo de expor a sua intimidade aos seus convidados. Tudo em prol de um imenso jogo de palavras num vibrante duelo de egos.

Ao longo da noite, Nick e Honey , o casal convidado, são arrastados para esta dinâmica revelando eles próprios todos os podres da sua relação. À medida que a acção se desenvolve, assistimos a um desvendar de traumas, dúvidas e ressentimentos que acaba por deixar cada uma das personagens em carne viva.

Procuramos em todas as falas, em todos os olhares, o motivo, a razão pela qual George e Martha permanecem juntos porque, simplesmente, nos parece inconcebível que se amem. Quem ama não fere, quem ama cuida e apoia o outro sendo um porto de abrigo, um lar, uma quietude para o dia-a-dia. Mas este é um casal que nos mostra o contrário, e que nos diz que por vezes é preciso ferir o outro para saber que está vivo e que olha para nós. Este é um casal que se degladia nos mais perniciosos combates para em seguida deixar que o outro se recomponha e de seguida voltar a atacar.

Desengane-se o espectador que pense que este é um drama vivido unicamente por George e Martha, pois quantos de nós em algum momento das nossas relações não agredimos o outro só para lhe mostrar que estamos aqui e que queremos continuar a viver juntos.

Quando a noite termina fica a dúvida se tudo continuará como dantes, ou se este foi um início de uma nova fase nas vidas destas quatro pessoas. Resta-nos a certeza de que todos nós temos medo de Vírginia Woolf.

Margarida Mateus

A sessão será seguida de um debate moderado por Margarida Mateus, psicóloga e programadora no Festival Caminhos do Cinema Português

ENTRADA LIVRE

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