1 de Março, 19h: “Habemus Papam – Temos Papa”

Realização: Nanni Moretti

Interpretação: Michel Piccoli, Nanni Moretti, Renato Scarpa, Jerzy Stuhr

ITA/FRA – 2011, 102’, M/12

Depois da morte do Papa, os cardeais de todo o mundo reúnem-se para, em clausura, eleger o seu sucessor. Enquanto isso, na Praça de São Pedro, milhares de pessoas aguardam ansiosamente a primeira aparição do novo Sumo Pontífice.

Porém, esmagado com o peso da responsabilidade, o herdeiro de S. Pedro (Michel Piccoli) entra em pânico, recusando-se a aparecer em público. Depois de tudo tentarem, os seus conselheiros decidem chamar um dos mais reconhecidos psicanalista do país (Nanni Moretti) para o ajudar a ultrapassar a crise. Mas nada parece resultar.

Depois de três dias com o mundo suspenso, vagueando solitariamente pelas ruas de Roma, ele tem de encontrar a coragem necessária para tomar a única decisão possível…
Uma comédia dramática, realizada por Nanni Moretti, sobre a dúvida, a angústia e a vulnerabilidade do ser humano.

Em entrevista ao suplemento “Ypsilon” do Público, Naani Moretti referiu que convidou Michel Piccoli para interpretar o “seu” Papa, depois de o ter visto no filme “Vou para Casa” de Manoel de Oliveira, que apresentámos a 2 de Fevereiro.

 

A alma da comédia italiana clássica continua a passar como poucas pelo cinema de Nanni Moretti, um dos poucos contemporâneos a pensar seriamente como a actualizar sem lhe emascular a truculência. “Temos Papa” é perfeito no modo como nos faz rir para logo a seguir nos deixar a perguntar do que é que nos estamos a rir, quando as coisas não têm assim tanta graça como isso (no caso, a história de um papa recém-eleito como solução de compromisso que dá por si incapaz de assumir o cargo). É menos perfeito no modo como não concilia a contento a melancolia e a truculência – se esse contraste é a chave do filme, Moretti fica por vezes perigosamente perto de afogar a performance toda em nuances de Michel Piccoli como o Papa que duvida, na truculência hilariante do conclave dos cardeais (com um torneio de voleibol darwinista e questões sobre os ansiolíticos cardinalícios). Não deixa, por isso, de ser um filme de uma deliciosa e pungente ironia, de uma feliz humanidade – fica apenas a sensação (que “O Caimão” já nos deixara) de um Moretti a meio gás, com rasgos do que seria capaz de fazer com o depósito cheio… (Jorge Mourinha, in Ypsilon)

A ansiedade deste Papa não anda longe da do alter-ego de Nanni Moretti em filmes como “Palombella Rossa”, por exemplo. Mas agora é um homem mais velho e muito mais desesperado e, claro, com uma responsabilidade maior. O que Moretti filma é este pânico “existencial”, o medo da vida e o medo da morte, a dúvida de um homem velho sobre se, algures, não terá trocado as prioridades (a cena na pastelaria, o prazer simples dos bolos acabados de sair do forno). E que se abeire deste abismo com semelhante equilíbrio entre a gentileza (no olhar sobre tudo e todos, do Vaticano aos cardeais) e a brutalidade (o berro de Piccoli quando o esperam na varanda) é o mais notável cometimento de “Habemus Papam”, filme sobre uma humanidade que insiste em não ser obliterada pelo estatuto e pelos símbolos. No fim, ganha a humanidade, seca, respeitosa e orgulhosamente: “Habemus Papam”, grande filme do “não”. 
(Luis Miguel Oliveira, in Ypsilon)

Fonte: Cinecartaz Público e IMDB

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