23 de Fevereiro, 19h: “Aurora”

Realização: Cristi Puiu

Interpretação: Cristi Puiu, Clara Voda, Catrinel Dumitrescu

Roménia, 2010, 181’, M/12

Viorel tem 42 anos, é divorciado, tem duas filhas e, no momento em que se encontra, sente que não tem absolutamente nada a perder. Desistindo de tentar encontrar o sentido para a sua existência, é arrastado pelos acontecimentos, atravessando a cidade de Bucareste e, sem rumo e cheio de pensamentos negativos, compra a arma que o levará à perdição. Uma história trágica, realizada e protagonizada pelo romeno Cristi Puiu (“A Morte do Sr. Lazarescu”).

Segunda parte de uma série de filmes intitulada «Six Stories From The Bucharest Suburbs», de que apresentámos o primeiro, “A Morte do Sr. Lazarescu”, a 9 deste mês.

Fonte: Cinecartaz Público

 

Cristi Puiu foi o realizador de “A Morte do Sr. Lazarescu”, o filme que deu o sinal de arranque para a descoberta de um cinema romeno (enfim) revigorado, e depressa convertido, por acção de Puiu mas também de outros cineastas (Cristian Mungiu, Corneliu Porumboiu, sobretudo estes), em coqueluche do circuito internacional “alternativo”. Existe de facto um “ar de família” entre os filmes deles todos, que legitima esta aproximação muito para além de meras coincidências geográficas, mas seria errado tratar este “novo cinema romeno” apenas como um caso colectivo. Há idiossincrasias, universos individuais, estilos próprios – e é por isso que, com “Aurora”, Cristi Puiu nos parece confirmar-se como o mais entusiasmante, eventualmente o mais profundo (até, digamos, metafisicamente falando), desta leva de cineastas romenos.

Nem estamos assim tão longe, “processualmente”, de “A Morte do Sr Lazarescu”. Filme que, recorde-se, contava a história de uma longa noite (a última noite do Sr Lazarescu) em que um homem se apagava entre ambulâncias e hospitais, sintomas, exames e (muitos) formulários. Não se resumia a isso, mas o peso da burocracia hospitalar tornava fácil a relação (de resto, subscrita pelo próprio Puiu) com o lastro deixado por décadas de regime comunista. Em “Aurora” encontramos outra vez um filme obsessivamente centrado numa só personagem – não deve haver um único plano em que a câmara se afaste dela ou do seu olhar – e nas suas deambulações: é o Sr Viorel Ginghea (interpretado, muito bem, por Cristi Puiu “himself”), e se não está a morrer como o Sr. Lazarescu vai ser o agente da morte de várias pessoas.

Há algumas referências de contexto “social” – notícias na televisão, ou uma oposição entre um modo de vida operário e tradicional (o Sr Viorel é engenheiro consultor numa unidade metalúrgica) e um cosmopolitismo mais moderna (umas das cenas mais tensas e mais absurdas passa-se numa boutique de roupa feminina, entre peças de Valentino e uma pergunta, “tem ideia de porque é que as mulheres passaram a vestir calças?”). Há portanto, dizíamos, elementos mais do que suficientes para entender “Aurora” como retrato ínvio da Roménia contemporânea, e não se faria com eles um entendimento errado. Mas, tal como em “Lazarescu” e porventura mais ainda, há uma espessura, um negrume psicológico, que deslocam a questão para outras esferas.

Na cena final, quando está a ser interrogado, o Sr Ginghea diz “não acreditar que o sistema judicial seja capaz de compreender a complexidade da sua relação com a ex-mulher”, e a frase é certamente um “understatement” para os devidos efeitos cómicos. Essa “complexidade” está, obviamente, na cabeça da personagem, e é a personagem que, desta vez, vive o seu labirinto “burocrático” interior. Mais do que outra coisa qualquer, “Aurora” é um filme psicológico, mas daquela espécie que se remete à pura observação e da psicologia explica nada: apenas um grande espaço em branco, como se tudo esbarrasse no rosto impassível do Sr Ginghea. Ocorre-nos que talvez nunca se feito na Europa um filme tão parecido com o “Taxi Driver” de Scorsese.

Uma personagem “inadaptada” mas de cuja “inadaptação” pouco ou nada sabemos de concreto, o comportamento obsessivo desmultiplicado (também) em rotinas (como Travis Bickle, o Sr Ginghea conduz vagarosamente o seu automóvel pelas ruas de Bucareste), um desfasamento fundamental entre o olhar da personagem e o olhar do espectador. Mas claro, muito mais “vazio” do que o de Scorsese, e de certa maneira também muito mais maníaco. A grande força, propriamente cinematográfica, de “Aurora” está na atenção milimétrica aos detalhes, aos gestos, à continuidade das acções (mesmo as mais anódinas, mas o espectador nunca sabe, quando uma “acção” começa, se ela vai acabar anodinamente ou não), a um tratamento do tempo que de “corpo” cada cena, cada plano, confere-lhes uma “espessura” (em sentido físico e nada metafórico) que se constitui, em primeiro lugar, se não forçosamente na raiz do desconforto do espectador, seguramente na razão da sua incerteza. “Aurora” é obra de grande cineasta, juramos por isto. (Luis Miguel Oliveira, in Ypsilon)

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