02 de Feveiro, 19h: “Vou para Casa”

Realização: Manoel de Oliveira

Interpretação: Antoine Chappey, Catherine Deneuve, John Malkovich, Leonor Baldaque, Leonor Silveira, Michel Piccoli

PORTUGAL/FRANÇA, 2001, 190’, M/12

Uma reflexão sobre o envelhecimento e a iminência da morte, conta a história de um actor de teatro consagrado que vê a tragédia irromper subitamente na sua vida.

Gilbert Valence (Piccoli) pode dar-se ao luxo de recusar papéis menores: é um grande senhor do teatro. Mas um dia, no final de uma representação, o horror bate-lhe à porta, quando o informam que a mulher, a filha e o genro morreram num acidente de viação. A partir daí, Valence partilha todo o seu tempo com o neto, numa transferência de afectos e cumplicidades para exorcisar a dor. E quando a vida parece regressar à normalidade e um realizador americano (John Malkovich) lhe propõe representar Ulisses, numa adaptação de Joyce, Valence não pensa duas vezes. Mas aí, a tragédia volta a apoderar-se da vida do actor.

 

Oliveira continua a surpreender: depois de digressões por outras vias, regressa a “casa”, a uma simplicidade quase artesanal, interrogando a razão de ser da representação teatral, da capacidade do cinema para fixar imagens e sons. Sem qualquer aparato retórico, “Vou Para Casa” centra-se no fabuloso Michel Piccoli para contar uma história com várias dimensões de leitura: para todos, uma história tocante de um avô e de um neto; para quem quiser ler um complexo retrato da serenidade indispensável para envelhecer e ver a morte como essência para representar a vida. Hilariante e comovente, mas nunca lacrimejante, o filme rima com “Viagem ao Princípio do Mundo”, mas também com “O Acto da Primavera” ou com “Francisca”, colocando as grandes questões da obra oliveiriana: Que mundo? Que imagem? Que representação? (Mário Jorge Torres, in Ipsilon)

Tendo como personagem principal um velho actor de teatro (Michel Piccoli) que começa a dizer “não” (aos compromissos; ao mundo que já não entende), “Vou para Casa” desenha um movimento de fuga, que é também de reencontro, em direcção à infância. Isso é, uma forma de reencontrar a clareza, uma limpidez possível no meio da catástrofe. É assim o filme de Oliveira: uma ligeireza grave, um olhar espantado (e aterrorizado) para uma Paris onde a monumentalidade convive com o espectáculo de feira, e por isso o refúgio nos cafés de bilhete postal, à procura do burlesco do “silent movie”. Sem grandiloquências, o cinema de Oliveira é tão musical, tão livre… E pode testemunhar-se o encantamento mútuo entre um realizador e o seu intérprete, Oliveira e Piccoli.(Vasco Câmara, in Ipsilon)

Fonte: Cinecartaz Público

Nota: chamamos a atenção para o facto de o filme ser falado em francês, e legendado em inglês.

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