12 de Janeiro, 19h: “Líbano”

Realização: Samuel Maoz

Interpretação: Yoav Donat, Itay Tiran, Oshri Cohen

ISRAEL, 2009, 93’, M/16

Junho de 1982. Primeira Guerra do Líbano, conhecida também por “Operação Paz na Galileia”. Um tanque de guerra é enviado para uma cidade hostil numa missão aparentemente simples, que acaba por ficar fora de controlo. Shmulik (Yoav Donat), Assi (Itay Tiran), Hertzel (Oshri Cohen) e Yigal (Michael Moshonov) são quatro jovens soldados, a poucas semanas do fim do destacamento, que assistem às atrocidades da guerra através da mira de um tanque blindado, sem nada poderem fazer senão obedecer cegamente a ordens. E, a meio de uma situação dramática em que são abandonados ao seu destino, acabam por ter como guia apenas o próprio instinto de sobrevivência, esforçando-se por salvaguardar a sua humanidade e sanidade mental.

Primeira longa-metragem do israelita Samuel Maoz, tem como base as experiências traumáticas do próprio realizador, quando, aos 20 anos, foi soldado na Guerra do Líbano.

Leão de Ouro na 66.ª edição do festival de Veneza, onde teve estreia mundial, foi nomeado para dez prémios Ophir da Academia de Cinema de Israel.

Fonte: Cinecartaz Público e IMDB

 

O filme de Maoz não é tanto sobre o Líbano (ou sobre o estado constantemente “em guerra” de Israel) como é sobre a guerra, “tout court”, e sobre o modo como o homem a vive (ou aprende a vivê-la). Para isso, o cineasta arrisca um “tour de force” na corda bamba, tanto mais arriscado quanto estamos a falar de um primeiro filme: fazer o espectador sentir a guerra na primeira pessoa, restringi-lo ao espaço confinado de um tanque, fechá-lo durante hora e meia com os quatro homens da tripulação e com o modo como cada um deles enfrenta a sua primeira experiência de combate e descobre algo sobre si próprio no processo. E ganha a aposta em toda a linha. Muito se tem falado sobre o “voyeurismo” ou o “mau gosto” de algumas cenas vistas através do “periscópio” do tanque, mais violentas ou desconfortáveis, com a mira telescópica a deixar no campo tanto quanto fica de fora. Mas o que Maoz está a fazer é apenas reduzir a experiência da guerra, mesmo que mediada por um dispositivo tão cinemático como este (o periscópio é, literalmente, a lente da câmara, o olho que vê sem conseguir parar de ver), à sua essência urgente, à necessidade de decidir agora, já, imediatamente, sucumbindo ou resistindo ao instinto primal de sobrevivência, tornando tangível o conflito entre a moral e o instinto. Como quem diz: é demasiado fácil olhar para as coisas de fora, portanto venham vê-las de dentro. Fechados num esquife de metal onde só se mata, ou se morre.

Sem heroísmos hollywoodianos nem finais felizes de filme de guerra, “Líbano” dá corpo aos suores frios, ao cheiro a pólvora e metal e sangue de um modo que raros filmes conseguiram fazer.

Merecidíssimo Leão de Ouro em Veneza 2009, é uma experiência cinemática de cortar o fôlego que pode e deve ser lida como complemento ao excelente e Oscarizado “Estado de Guerra” (2008) de Kathryn Bigelow. (Jorge Mourinha, in Ipsilon).

 

 

 

 

 

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