22 de Dezembro, 19h: “O Atalho”

Realização: Kelly Reichardt

Interpretação: Michelle Williams, Bruce Greenwood, Will Patton, Zoe Kazan, Paul Dano

EUA, 2010, 102’, M/12

1845. Três famílias de pioneiros contratam Stephen Meek, um guia com experiência no terreno, para os auxiliar a transpor a Cordilheira das Cascatas, no deserto de Oregon, EUA. Confiantes e esperançosos, seguem-no por um atalho sem imaginar que ele se vai perder no deserto e levá-los ao pesadelo. Sem água nem mantimentos, o grupo vai ter de encontrar forças e estratégias básicas que lhes permitam sobreviver àquele lugar inóspito. Quando se cruzam com um indígena, vacilam entre confiar num guia que se tem revelado pouco digno ou em alguém que, apesar de mais apto naquele território árido, acreditam ser um adversário natural.

Um “western” com realização de Kelly Reichardt (“Old Joy”, “Wendy and Lucy”) e argumento de Jonathan Raymond, baseado em diários dos pioneiros encontrados no estado do Oregon. É também uma reflexão sobre as origens dos Estados Unidos

 

A americana Kelly Reichardt assina um dos grandes filmes (americanos e não só) dos últimos tempos – e não, isto não é um western

Convirá começar pelo aviso da praxe: por muito que “O Atalho” se inspire num “fait-divers” verídico da conquista do Oeste e traga todos os “sinais exteriores” de um western, que não se vá ver o novo filme da realizadora Kelly Reichardt (“Wendy e Lucy”) como um western. Nem sequer como um western revisionista, porque o trabalho de Reichardt e do seu argumentista e habitual colaborador Jon Raymond reside mais dentro das convenções do “road movie”. E lembramo-nos daquele célebre slogan com que o “Easy Rider” de Dennis Hopper e Peter Fonda foi lançado: “um homem foi em busca da América e não a encontrou em lado nenhum”.

“O Atalho” é, de certo modo, isso: a história de uma busca da América num local onde ela ainda não existe. Estamos em 1865 e três casais religiosos e o seu guia fanfarrão separam-se da caravana principal em direcção ao estado do Oregon, mas dão por si perdidos e com a água a escassear. Reichardt pode filmar estas paisagens áridas e desoladas como Ford filmou o Monument Valley (no velho formato “quadrado” conhecido como “Academy ratio”, em 1:1.33), mas tudo pára aí.

A identificação com o western desaparece aos poucos para dar lugar a um drama de câmara, um pequeno grupo entregue a si mesmo, uma história de sobrevivência. Tudo é contado numa espécie de animação suspensa: faz sentido, estamos no meio do nada, do desconhecido, num sítio que já não é a civilização e ainda não é a terra prometida. É um limbo, um purgatório onde a palavra-chave é “comunidade” mas onde a pequena comunidade, dividida entre homens e mulheres de acordo com os mandamentos bíblicos, se começa a fracturar.

Kelly Reichardt sempre olhou para a comunidade como foco ou núcleo da América, antiga ou moderna, e em “O Atalho” ela não hesita em confrontar-se com a dimensão mítica dessa América e dessa comunidade. Fá-lo de um modo simultaneamente celebratório e desarmante: a fé quase cega dos pioneiros que se atiraram ao desconhecido, o medo e a incompreensão que surgem quando o desconhecido ameaça subjugá-los. Se a Wendy de “Wendy e Lucy”, por exemplo, era “o outro” perdido “fora da passadeira” de uma América fechada sobre si mesma, “O Atalho” regressa aos primórdios dessa comunidade e do modo como ela se define precisamente em função do “outro” – um guia que está longe de justificar a confiança, um índio que eles não compreendem – e do modo como a sobrevivência implica escolhas morais que não são minimamente lineares nem respondem a quaisquer escrituras ou preceitos.

Filmando de modo difuso, atmosférico, evocativo, com um olhar ao mesmo tempo alienígena e fascinado, Reichardt constrói o seu filme por texturas em vez de estruturas narrativas. Isso vai assustar todos aqueles para quem a “lentidão” ou a ausência de acção são uma falha, todos aqueles que não compreendem como a utilização judiciosa do silêncio e do espaço é o que dá força e energia a este cinema certamente exigente mas resolutamente atento. E quando damos por nós estamos no meio de uma meditação oblíqua sobre a comunidade, sobre o medo, a incompreensão, o outro, feita à medida dos nossos dias, confirmando como Reichardt e Raymond pensam na América (e pensam a América) para lá dos sonhos e das imagens, num trabalho de desconstrução e desmontagem que remonta à fonte desse país que o cinema ajudou a construir. Encontram-na? Cabe a cada espectador decidi-lo. Na certeza de que são raros os filmes que se entregam a essa busca como “O Atalho” o faz. (Jorge Mourinha, in Ipsilon)

Fonte: Cinecartaz Público

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