28 de Dezembro, 19h: “Uma História de Violência”

Realização: David Cronenberg

Interpretação: Viggo Mortensen, Maria Bello, Ed Harris, William Hurt

EUA, 2005, 96’, M/16

Tom Stall (Viggo Mortensen) vive calmamente com a mulher advogada (Maria Bello) e os dois filhos numa pequena e pacata cidade no Indiana. Mas, uma noite, a sua idílica existência é perturbada quando impede um roubo na sua cafetaria e salva os seus clientes e amigos matando os dois criminosos. O acontecimento atrai de imediato todos os meios de comunicação social e Tom é considerado um herói, mas todo este circo mediático deixa-o desconfortável. Ele e a família tentam a todo o custo voltar à normalidade. Mas é então que um misterioso e ameaçador estranho chega à cidade. (Fonte: Cinecartaz Público)

Não há famílias perfeitas e quem disser o contrário mente. É por isso que não nos surpreende que a ilustração de manual da família-modelo americana que David Cronenberg desenha nos primeiros minutos de “Uma História de Violência” seja mesmo só isso: uma ilustração de manual. Já desconfiamos que há ali qualquer coisa que não joga bem. Cronenberg sabe-o e brinca connosco. Estica a ilustração até ao ponto de ruptura, passa 20 minutos a encenar pacatamente o quotidiano desta família-modelo, com paciência de entomologista que sabe que é uma questão de tempo até as coisas se revelarem. Há sempre um pesadelo para cada sonho; há sempre um preço para cada opção. Chegou a altura de Tom Stall/Viggo Mortensen pagar o seu: aceitar a dúvida que se insinua de que ele não é quem diz ser, depois de um acto de heroísmo demasiado lesto para ser apenas obra do acaso, depois de estranhos visitantes que insistem em chamá-lo por outro nome. Tratá-lo como um assassino profissional, homem de mão de “gangsters” de Filadélfia, e não como o pacato pai de família e proprietário de um “diner” perdido no Midwest americano para quem os sarilhos são a última coisa que ele quer arranjar. Ele nega. Mas a dúvida está instalada. O paraíso está, definitivamente, perdido. E mesmo que se possa lá voltar, já não será o mesmo. E, contudo…

“Uma História de Violência” é quase um ensaio académico sobre os esqueletos no armário da família ideal, tal a frieza de entomologista com que Cronenberg se aplica a enumerar e, depois, a subverter os lugares-comuns do “thriller” e do filme de acção. Este é, de facto, um Cronenberg “mainstream” – a sua secura depurada e económica chega, até, a ter alguma coisa de Clint Eastwood – mas por trás dessa opção “mainstream” esconde-se uma meditação desconfortável (mas não o são todas?) sobre a natureza humana. As aparências iludem. David Cronenberg só quer que não nos esqueçamos disso. (Jorge Mourinha, in Ipsilon)

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