10 de Novembro, 19h: “Viagem a Portugal”

Realização: Sérgio Tréfaut

Interpretação: Maria de Medeiros, Isabel Ruth, Makena Diop

PORTUGAL, 2011, 74 min.

Maria (Maria de Medeiros) é uma médica ucraniana que vem a Portugal passar o ano com Greco (Makena Diop), o seu marido, também médico. Ao chegar ao aeroporto de Faro, é abordada por agentes do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras que, com critérios muito discutíveis, assumem que por ela vir da Europa de Leste e o seu marido ser senegalês, algo de ilegal pode estar por detrás daquela viagem. Sem explicações ou fundamento, Maria é levada para interrogatório por uma inspectora particularmente intransigente (Isabel Ruth), passando uma noite de pesadelo a justificar a sua vida pessoal. Inspirado numa situação verídica, um filme de Sérgio Tréfaut (“Lisboetas”, “Cidade dos Mortos”) sobre xenofobia e abuso de poder que, segundo o cineasta, “procura fomentar o debate a respeito do funcionamento da polícia e da sociedade civil.” (Fonte: Cinecartaz/Público)

Não é coisa normal ver um documentarista que, passado à ficção, faça obra tão diferente daquilo a que nos habituou: paredes-meias com o experimentalismo, “Viagem a Portugal” é um objecto estético austero e despojado que ejecta toda e qualquer queda na banalidade melodramática para apenas reter o esqueleto descarnado do caso real em que se inspira. E é precisamente nessa intersecção que Sérgio Tréfaut ganha a sua aposta: é quase um desafio anti-naturalista, teatral, deixando os actores “desamparados” em cenários reduzidos ao mínimo. Talvez por causa disso, e da sua aposta na unidade aristotélica de tempo (24 horas), espaço (o aeroporto de Faro) e acção (apenas três personagens), Tréfaut consegue concentrar o espectador naquilo que realmente interessa, que é a dimensão humana da história, muitíssimo bem transportada por uma Maria de Medeiros que não víamos com tanta garra no cinema há anos e por uma Isabel Ruth arrepiante de mesquinhez. Uma surpresa. (Jorge Mourinha, in Y/Público)

Nota final: Tânia, a médica ucraniana cuja história foi a inspiração para este filme, voltou a Portugal no ano seguinte (desta vez por uma fronteira terrestre), para se reunir com o seu marido. Reside há mais de 10 anos em Portugal, e o marido já tem a nacionalidade portuguesa.

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